Koh Phi Phi entrou no meu percurso pelas praias e pelas ilhas que poderiam ser acessadas a partir dali. Eu estava hospedado em um hostel de frente para o mar e, durante um dos passeios, ouvi do homem que conduzia o long-tail que ele também pescava.
No fim da tarde seguinte, sentado diante do hostel, observei os barcos retornando e os passageiros desembarcando. Quando reconheci aqueles homens como pescadores, a frase dita no dia anterior voltou para mim.
A maré estava baixa e havia deixado uma longa faixa descoberta entre a praia e os barcos. Peguei a câmera, entrei naquela área e caminhei em direção aos pescadores enquanto eles recolhiam redes, cuidavam dos barcos e encerravam o trabalho.
A ideia da série surgiu ali, quando revi algumas fotografias na própria câmera. A história ganhou forma mais tarde, diante do arquivo completo.
Chegar pelas ilhas
Eu não fui a Koh Phi Phi para fotografar pescadores. Cheguei atraído pelas praias e pelos passeios de barco entre as ilhas do arquipélago.
Durante um desses passeios, o barqueiro comentou que ainda era pescador. A frase revelou uma relação que eu ainda não havia percebido: os mesmos homens que conduziam visitantes durante o dia continuavam retirando do mar parte de seu sustento.
Naquele momento, eu apenas guardei o que ele havia dito. A frase ganhou outra dimensão quando vi os long-tails retornando diante do hostel.
Quando a maré permitiu a aproximação
O sol já estava próximo do horizonte quando os barcos começaram a chegar. A luz diminuía e os tons da cena se tornavam mais frios.
A maré havia recuado bastante. O trecho normalmente ocupado pela água estava exposto e eu pude caminhar em direção aos barcos, mudando gradualmente minha distância em relação aos pescadores.
Comecei com fotografias mais abertas, nas quais os homens ainda apareciam cercados pelo mar, pelos long-tails, pelas lanchas e pelos barcos turísticos. Depois me aproximei para acompanhar o recolhimento das redes e os movimentos realizados ao redor das embarcações.
Eu fotografei também pedras, visitantes e barcos isolados. Ainda não havia uma sequência definida. Eu estava reunindo as partes de uma situação que acabara de reconhecer.
Com a maré baixa, uma extensa área entre a praia e os barcos ficou descoberta e permitiu que eu caminhasse em direção ao que acontecia no mar.À medida que me aproximei, os barcos deixaram de ser apenas parte da paisagem e o trabalho realizado ao redor deles passou a conduzir minhas fotografias.
A ideia apareceu em campo. A narrativa ganhou forma quando encontrei o arquivo inteiro.
Confirmar que havia uma história
Ainda em campo, ao rever algumas imagens na câmera, percebi que os pescadores poderiam sustentar uma série. Eu havia encontrado a ideia central, mas ainda não sabia quais fotografias permaneceriam nem como seriam organizadas.
Quando abri o arquivo completo, encontrei material suficiente para desenvolver a narrativa. A recorrência dos pescadores, dos barcos e das redes confirmou que aquela observação podia avançar para uma história.
Pela primeira vez, eu tinha produzido muitas fotografias horizontais capazes de exercer funções diferentes dentro de uma sequência. O desafio apareceu no sentido oposto ao de Emoção em Pedra: havia horizontais suficientes e poucas imagens verticais.
O arquivo completo reúne as diferentes observações daquele fim de tarde. A recorrência dos pescadores, dos barcos e das redes revelou que havia uma história possível naquele material.
Separar o que foi observado do que sustentava a história
Durante o tempo em que permaneci no mar, fotografei diferentes elementos daquela situação. Entre eles, dois turistas caminhando pela área que a maré havia deixado descoberta.
A imagem ajudava a compreender o alcance do recuo da água, mas não desenvolvia a relação que havia começado a construir entre os pescadores, os barcos e o mar.
Ela permaneceu como parte da observação daquele fim de tarde, mas saiu da sequência quando reconheci qual história o conjunto poderia sustentar.
Dois turistas atravessam a área descoberta pela maré. A fotografia foi produzida durante a observação em campo e retirada da sequência final.
Encontrar a vertical que faltava
A sequência precisava de uma imagem vertical que estabelecesse uma distância intermediária entre o plano geral e o pescador visto de perto.
A fotografia 06336 havia sido produzida na horizontal. O arquivo mostrava dois personagens, a canoa e outra embarcação ao fundo.
Ao reenquadrar a fotografia, os dois personagens e a canoa permaneceram no quadro. O corte retirou parte do espaço lateral, aproximou a ação e criou a passagem que faltava entre as outras duas verticais.
O reenquadramento preserva os personagens e a canoa, mas modifica a distância percebida dentro da sequência.
A vertical necessária já existia dentro de uma fotografia horizontal.
Quando céu e mar se tornaram uma mesma superfície
Os arquivos produzidos no fim da tarde possuíam uma tonalidade azulada. Em várias fotografias, o céu e o mar já apresentavam pouca separação de cor.
Na fotografia 06329, a conversão para preto e branco aproximou ainda mais essas duas áreas. A linha do horizonte quase desapareceu, enquanto o pescador, a rede e o barco permaneceram definidos sobre a superfície clara.
O tratamento retirou informações cromáticas que já exerciam pouca função e concentrou a leitura nos elementos que sustentavam a cena.
Com a redução da diferença entre céu e mar, pescador, rede e barco passam a organizar a fotografia.06329
Um preto e branco próprio para esta série
A fotografia 06134 permitiu compreender com mais precisão o tratamento que a série poderia receber.
No arquivo original, o tom azulado separava discretamente céu e mar. Na versão final, essas áreas se aproximam até formar uma superfície quase contínua. O long-tail permanece como uma forma escura cercada por branco.
O resultado se diferencia do preto e branco de O Dono do Jogo ↗. Nesta série, a imagem depende da grande extensão clara, dos contornos finos e do contraste concentrado em poucos elementos.
Foi diante dessa fotografia que reconheci a aparência de desenho a lápis que passou a orientar o tratamento do conjunto.
06134
O arquivo original e a versão final da fotografia 06134. A conversão altera a relação entre barco, céu e mar.
A grande área branca passou a fazer parte da linguagem da série.
O corte como decisão narrativa
A fotografia 06336 resolveu uma dificuldade de formato e uma necessidade de sequência.
No arquivo horizontal, os dois personagens, a canoa e outra embarcação dividiam a atenção com uma área extensa nas laterais. O reenquadramento vertical concentrou a relação entre as pessoas e o barco.
O corte também definiu a posição da fotografia entre as outras duas verticais. A sequência parte de figuras pequenas, chega a uma distância intermediária e termina próxima ao pescador e à rede.
06336
A sequência final
A montagem começa com um plano geral, no qual o pescador ocupa uma pequena parte da imagem e divide o território com embarcações de diferentes escalas.
As três fotografias verticais organizam uma aproximação progressiva. Na primeira, as figuras ainda aparecem distantes. A segunda insere os dois personagens e a canoa em uma distância intermediária. Na terceira, o pescador e a rede ocupam uma área maior do quadro.
Depois do trio vertical, a sequência chega ao ponto de maior proximidade e inicia um movimento de saída. A presença humana diminui até que os barcos permaneçam sozinhos sobre o mar.
A fotografia final conserva o local e os instrumentos de trabalho depois que os pescadores encerram o dia.
A distância entre fotógrafo e assunto organiza o movimento da sequência.
A fotografia continua sendo construída depois do campo
Durante muito tempo, observei fotografias de referência já finalizadas e me perguntei como seria possível produzir uma imagem com aquela aparência no momento do clique.
Esta série me ajudou a compreender melhor o papel da edição. O campo forneceu a luz, os pescadores, os barcos, a maré baixa e os diferentes pontos de vista. O arquivo permitiu selecionar as distâncias, reenquadrar fotografias e decidir como a sequência avançaria e recuaria.
O preto e branco foi desenvolvido a partir das características que já existiam nos arquivos: a proximidade entre céu e mar, a luz do fim da tarde e as figuras escuras distribuídas dentro da paisagem. A edição levou essas características até a forma que hoje reconheço na série.
Quando observo o resultado, tenho a sensação de ter desenhado ou pintado aquelas fotografias. Esse sentimento vem das decisões aplicadas sobre o material que encontrei em campo.
A edição me mostrou que uma fotografia pronta contém decisões que não estavam resolvidas no momento do clique.
O que a série se tornou
E Ainda Sou Pescador acompanha homens que conduzem visitantes entre as ilhas e continuam retirando do mar parte de seu sustento.
A narrativa começa quando o pescador ainda aparece pequeno diante da paisagem. A sequência se aproxima de seu trabalho, acompanha as redes e os barcos e volta a se afastar quando o dia termina.
Na última fotografia, os homens já deixaram o mar. As embarcações permanecem sobre a água, dentro do mesmo espaço em que o trabalho continuará no dia seguinte.