O projeto que eu havia desenvolvido
Durante meses, desenvolvi uma investigação editorial e fotográfica sobre a maneira como cidades, espaços, serviços, regras, ritmos e símbolos interferem no comportamento de quem os atravessa.
A pesquisa reuniu estudos sobre semiótica urbana, comportamento do consumidor, sociologia, turismo e experiência. Veneza, Florença, a Toscana rural, Roma e o Vaticano foram estudados como territórios capazes de revelar relações entre visitantes, moradores, trabalhadores, patrimônio e operação.
O material resultou em dois documentos extensos. Neles estavam definidos os temas da investigação, a arquitetura dos artigos, a linguagem fotográfica, os métodos de observação, os protocolos de campo e as entregas esperadas para cada território.
A arquitetura editorial que estava pronta
O que levamos quando chegamos
- Uma estrela para o Coliseu
- O sinal que apareceu no meu corpo antes que eu soubesse interpretá-lo
- Quando a cidade precisa caber no enquadramento
Como os lugares organizam nosso comportamento
- A arquitetura também atende, orienta e exclui
- Quando esperar faz parte do significado
- O Vaticano atende turistas dentro de um espaço que não existe apenas para atendê-los
Como o valor é construído
- Quando o cliente vê o trabalho, o preço deixa de chegar sozinho
- O que compramos quando compramos uma tradição
- Luxo é não receber a complexidade da operação
Quem absorve o custo da experiência
- A cidade vivida e a cidade consumida
- A experiência perfeita para quem consegue chegar até ela
- Quem sustenta a beleza enquanto estamos olhando para ela
A fotografia também estava planejada
O planejamento não se limitava aos artigos. Eu havia definido quatro movimentos para organizar o ensaio fotográfico, três funções para as imagens e um método de campo com cinco camadas de observação.
A cidade conduz o corpo
Filas, acessos, regras, circulação e espera.
A cidade conduz o olhar
Telas, monumentos, poses, contemplação e produção de imagens.
A cidade torna o valor visível
Trabalho, artesanato, materiais e hospitalidade.
A cidade distribui o custo
Moradores, manutenção, desgaste e equipes pouco percebidas.
Autoral
Imagem capaz de existir fora do artigo.
Evidência
Registro que sustenta uma hipótese.
Editorial
Imagem produzida para capas, artigos e sequências.
Camadas de campo
Contexto, comportamento, mecanismo, consequência e contraponto.
O conflito que apareceu durante a revisão
Ao revisar todo o material antes da viagem, percebi que havia desenhado mais do que uma preparação. Eu já havia definido os assuntos, as perguntas, as situações que deveria observar, as fotografias que precisaria produzir e parte das narrativas que esperava encontrar.
O projeto era consistente, mas a posição que ele começava a ocupar entrava em conflito com meu método fotográfico.
Esse método foi reconhecido depois de 218 dias de viagem por 15 países e consolidado durante meses de retorno ao arquivo. As séries que nasceram desse percurso não partiram de uma lista de imagens. Em cada uma delas, cheguei ao território por um motivo, observei quem ocupava aquele espaço e permaneci quando alguma coisa concentrou minha atenção.
Em Koh Phi Phi, fui atraído pelas praias e encontrei os pescadores. No Bromo, cheguei pela cratera e reconheci os trabalhadores do Mar de Areia. Em Florença, o estudo do Renascimento antecedeu o encontro, mas a série encontrou outro alcance quando retornei às fotografias.
O que se repetia não era um assunto planejado. Era uma forma de trabalhar: observar, reconhecer, fotografar e narrar.
Na preparação para a Itália, eu estava invertendo essa ordem. As narrativas começavam a ser definidas antes da observação. Se meu olhar fosse capturado por algo que não pertencesse ao plano, eu teria de escolher entre acompanhar o que acontecia diante de mim e cumprir o projeto que havia desenvolvido.
A revisão mostrou que o material precisava mudar de posição. A pesquisa seguirá comigo como repertório. Ela poderá ampliar minha capacidade de reconhecer relações, mas não determinará o que deverá ser fotografado.
O QUE FEZ O MEU OLHAR FICAR HOJE?
Esta será a pergunta que acompanhará o campo. Ela não define previamente um assunto e não exige que uma hipótese seja comprovada.
A resposta pode surgir diante de uma pessoa, de um gesto, de uma relação ou de uma situação que ainda não consigo explicar. Se uma história começar naquele encontro, as fotografias permitirão reconhecê-la depois.
As perguntas anteriores continuam disponíveis. A cidade pode conduzir o corpo, organizar o olhar, tornar o trabalho visível ou distribuir de maneira desigual o custo de uma experiência. Essas relações serão fotografadas quando forem reconhecidas no que acontece, e não porque precisam completar uma lista.